As mulheres de Chariar pagavam com a morte, ao amanhecer, o casamento e a noite de amor. Cherazade, destinada ao mesmo fim, percebe que a narrativa poderia salvá-la, contando cada noite, ao sultão, uma história inebriante sobre as desventuras da vida. Fascinado, Chariar substituiu a rotatividade dos amores pelas volúpias das histórias de Cherazade, que não apenas salvaram sua vida como remeteram-na à eternidade.
No livro de Ítalo Calvino, o mais italiano dos escritores, embora nascido em Cuba, Marco Polo, o viajante insaciável, narra ao imperador Kubai Khan, as cidades de que seu império é constituído. Não narra as portentosas aventuras humanas, mas a cidade apenas, que é o símbolo do império e da própria vida. Difere Marco Polo dos embaixadores e mensageiros de Kubai Khan, que trazem as notícias convencionais do poder, pois revela, com um único símbolo, a cidade, com toda a grandeza de sua existência.Nada é mais fascinante do que a cidade, sobretudo nesta quadra da história humana, em que a vida é essencialmente urbana. A cidade, em Calvino, é o símbolo da memória, do desejo, do olhar, das trocas, do nome e da morte. Marco Polo não se restringe, como “Ulisses”, de James Joyce, a resumir toda existência no cenário de uma única cidade, onde se come, se trabalha, se ama e se morre, num período, sem pausas. Marco Polo percorre as cidades do reino, todas com nomes femininos, como se percorresse o corpo de uma única mulher.
Marco Polo não descreve esses significados da cidade, que vão da memória até a morte, como uma simples metafísica dos símbolos, mas pelo que elas significam na vida de cada cidade.
Quando cheguei a São Paulo, superada a escarpa íngreme, deparei com uma cidade sem memória, posto que se devora a cada década. Cidade que se devolve como um vômito novo. Não há em suas esquinas nenhuma presunção do passado, nem do presente, pois o futuro se impõe como a memória oblíqua. Do Mercado Municipal à Tiffanny os desejos se igualam, na mortadela e nas esmeraldas; das magricelas das lojas finas às volumosas vendedoras de muzzarela. Tudo se come, em São Paulo, nada se reparte. O que mais impressiona é o amor pelo automóvel, ora espelho que remete à ambição, ora laquê a encobrir a vaidade. A gula é individual. Mas o mais solitário dos homens passeia igualmente na Oscar Freire e no Center Norte. Mas essas individuais figuras, Kublai Khan, se misturam como insetos, incestos raciais a confundir os passaportes.
*Jorge da Cunha Lima é poeta, jornalista, escritor, presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e da Abepec, e vice-presidente do Itaú Cultural.
Este texto foi retirado da revista urbs - Urbanismo Sustentável - nº44 – ano 2007
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